• Seu olhar crítico, certeiro e decisivo não deixava nada passar despercebido, sempre com uma sentença. Desde sua infância, ateve-se aos detalhes de tudo que avistava ao seu redor. Pessoas, vivências, desarranjos.
    Em certo momento, não bastava mais observar. Agora, como se fosse um fardo obstinado, precisava também resolver tudo que via, que não entendia e não encaixava. Buscou tantas soluções para os problemas cotidianos, que chegou ao fim de seus tempos, levando uma vida insolúvel, tantos foram os disparates encontrados.

  • Como um material fácil

    Consigo me enxergar como uma pessoa moldável, de material fácil, apesar de temer qualquer tipo de mudança.

    Tenho um pouco de estranhamento com o concreto. Admiro sim a decisão em primeira instância de ser o que é e ponto, mas esse tipo de matéria quando quebra é cindida de uma forma irrecuperável, como se uma fenda tivesse sido aberta em sua frente e a única opção fosse dar o passo.

    O molde fácil é temporal. Nem lá e nem cá, talvez ali às vezes. Talvez bem em qualquer lugar. Sem o “precisa estar” do concreto.

    Por muitas vezes eu já quis ser o outro, as vezes pode ser mais fácil seguir quando se tem somente um caminho. Basta ser e por ali trilhar. Mas pela opção de poder ser tanto, eu prefiro viver as formas dos mais variados moldes possíveis.

  • Uma memória que (talvez) nunca existiu

    Eu vivi uma memória que nunca existiu. Não como um sonho, bem abaixo do caminhar nas nuvens que qualquer sonho traz, por mais real que ele seja.

    Havia alguém ali conosco, estávamos em viagem e ele era nosso amigo, como se sempre tivesse sido. Mas esteve lá, e somente lá, não me lembro antes, sentimos falta depois, era particular e muito fiel, vivi uma pessoa que nunca existiu. Um grande amigo, ele completava. Um desses amigos especiais de grupo.

    Entre um grande e esquisito susto e algumas caipirinhas, ele esteve ali, num lugar que nunca mais voltaremos juntos. Mesmo nunca tendo existido, ele não vai nos deixar esquecer, disso eu sei, porque nós nos lembramos sempre. Todos.

    Eu já fui essa pessoa que nunca existiu. Também muito amigo, presente e procurado. Correspondente. Daqueles que se não estivesse ali, algo pareceria desajustado. Não posso ser de novo, não pros mesmos. Hoje sou também só mais uma memória que (talvez) nunca existiu.

  • Eterno retorno

    Tanto tempo buscando ser outro ser, que não se buscou dentro de si. Não soube das suas vontades e não encontrou a sua autenticidade. Até cansar. Quando cansou, se tornou um outro, algum que viu, “talvez eu deveria ter sido esse” pensou. Assim seguiu, em um ritmo diferente do próprio, completamente estranho, em uma linha que nunca era reta, um caminho que não sabia seguir sem uma trilha do outro que escolheu também ser.

  • Entre a vida e a morte.

    Um indeciso teve que decidir entre a vida e a morte

    A princípio só existiria uma resposta, mas não para o indeciso.

    Antes mesmo de pensar sobre a possibilidade da vida ele questionou “o que é a morte? Para onde eu posso ir?”

    Nunca existia somente uma resposta, milhares de possibilidades criavam rotas intermináveis em sua cabeça, muitas sem uma saída, com qualquer que fosse a questão.

    Qual é o benefício da indecisão? Ele nunca chegou a esse ponto. Ele nunca se percebeu. Mas viveu. Até não saber mais decidir. Bolonhesa ou Carbonara? Uma cerveja ou um vinho? O preto ou o branco? O céu ou o inferno? A vida ou a morte? Se desconheceu, e se foi, sem se saber.

  • 1. Mídia perdida

    Consegui pensar em tantas vidas antes dessa, eu já fui muito em minha cabeça, um pouco de tudo, mas muito pouco na realidade. Penso as vezes que conseguiria mesmo que mediocremente fazer qualquer coisa, absolutamente qualquer uma. Isso dificultou muito meu processo de construção, eu poderia ser tanto! Como eu vou viver somente uma escolha? Pessoalmente, nunca tive somente um hobbie, me tornei um pouco de tudo, e muito do nada de mais. Em alguns momentos me perco na divisão de ser, quero ser tudo — preciso ser um. Quero muito ser aquilo — em um curto período já não vou sou mais

  • A ansiedade de criar

    Eu nunca fui muito fã de biografias no geral. Talvez fosse somente por um pressuposto instalado na minha cabeça, porque também nunca tive muito interesse. Mas noto cada vez mais que documentários ou vídeos ensaio me inspiram bastante, muito mesmo.

    A primeira sensação forte que tive de inspiração, e de querer pausar um filme/documentário e fazer a minha própria coisa, foi com Inside, do Bo Burnham. Assim, com certeza antes disso também tive momentos como esse, mas é o primeiro que me lembro, e aqui agora não quero forçar tanto minha memória.

    No começo do meu processo interno de criação, era um turbilhão tão grande de ideias e vontades, que a única coisa real que manifestava em mim era ansiedade, e eu não conseguia expor, tirar nada dessa nuvem carregada da minha cabeça. Ainda hoje sinto que é muito complicado, eu sempre costumei seguir passos que já me eram dados. Mas com um certo tempo, mesmo com esse turbilhão eu sinto que tem um pequeno caminho, totalmente incerto, mas aberto.

    É complicado e estranho usar a palavra criação, soa meio bobo pra mim ler meus próprios textos, mas ainda não consigo substitui-la, mesmo sentindo que eu não crio nada, só exponho ideias manifestadas em palavras.


    O mídia perdida é uma central de ideias públicas, onde posso depositar sem amassar nenhum papel. E você também pode.


  • Abrir a porta de uma ideia

    Encontrar o seu próprio processo dentro do criativo é a maior dificuldade de criar. O que fazer com as coisas que estão borbulhando em sua mente? Aonde dispor? Pra quem?

    Não acredito que precise ter uma justificativa para criar, é libertador fazer sem pensar em capitalizar. Mas imagino que a identificação de quem se interessa pelo seu produto criativo quando exposto, gera uma realização pessoal gigantesca.

    Fazer, sem propósito te faz aprender, definitivamente. Quando o pensamento está exposto, você consegue visualizar aonde chegar por um caminho cada vez melhor, mais fácil, e… aperfeiçoar. Se o que você quer criar nunca ver a luz do dia, você nunca vai conseguir chegar aonde busca.


    O mídia perdida é uma central de ideias públicas, onde posso depositar sem amassar nenhum papel. E você também pode.


  • O homem que copia

    O dia todo hoje foi em um vôo. 13 horas sentado. Dessa maneira, há tempo, pra tudo.

    Costumo observar muito as pessoas em minha volta, o comportamento, todas as ações. Hoje eu vi o quanto o homem copia.

    Uma pessoa pede um café, a pessoa atrás, sente o cheiro, vê, nem mesmo sabia que gostaria de uma xícara, percebe, pede.

    Uma pessoa, começa a assistir um filme lançamento ali disponível, a pessoa que está do outro lado vê a tela, pensa que talvez também seja uma boa ver aquele mesmo filme, play.

    O serviço de bordo já passou há um tempo, mas alguém ali queria algo a mais, levanta, pega mais um suco. O de trás vê, vai atrás também daquela coquinha que não sabia que queria.

    E nisso, vamos sempre copiando um ao outro, em qualquer sútil comportamento até o desenrolar de uma grande “invenção”, isso é bem antigo, tudo é copiado.

    Particularmente, acredito bastante que mesmo assim, ainda dá pra ser original. Impossível criar algo, sem influência, sem uma mínima fresta de luz de ideia dissipando de uma visão, uma observação. Mas também acho que existe um limite, e quem cria, certamente sabe qual é a linha.


    O mídia perdida é uma central de ideias públicas, onde posso depositar sem amassar nenhum papel. E você também pode.


  • É bom tentar de tudo

    Até pouco tempo atrás, eu ficava extremamente frustrado com o jeito que levava a vida. Eu nunca estive absolutamente certo sobre nada, nem sobre nenhum caminho, nem sobre meus próprios gostos. Era muito difícil ter muitas ideias, perder o sono, não executar, e não perceber o que poderia e seria vantajoso seguir em frente.


    Eu já quis ser tudo, eu já quis fazer tudo, eu já tentei e fiz muitas coisas. E continuo.

    O Mídia Perdida é pra mim expor, não amassar os tantos papéis de ideias, não encher a lixeira de pensamentos brancos. O que eu achava que era meu maior problema, pode ser a minha solução para todas as buscas. Eu posso fazer tudo. Eu posso gostar de tudo. Eu ainda posso ser o primeiro a descobrir, e criar. Eu posso.

    Vai que daqui sai alguma coisa. Se não sair, pelo menos as ideias estarão aqui armazenadas, pra mim ou pra qualquer alguém.